“Guerra” contra ciclovias em São Paulo revela segregação

15 outubro, 2014 – 15:16

Fábio Arantes/Secom

Na cidade de São Paulo, o que era para ser uma política de mobilidade acabou se transformando em um debate ideológico sobre o direito à cidade

15/10/2014

Leonardo Ferreira

De São Paulo (SP)

Uma faixa exclusiva e devidamente sinalizada. Essa era uma exigência básica das pessoas que optaram pela bicicleta como principal forma de locomoção. A medida de segurança seria capaz de contribuir com a redução do número de acidentes e atropelamentos envolvendo ciclistas.

Na cidade de São Paulo não foi assim. O que era para ser uma política de mobilidade acabou se transformando em um debate ideológico sobre o direito à cidade.

A decisão do prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), de dar atenção a esse tipo de transporte gerou posicionamentos muitas vezes extremistas. Exemplo foi a reação de moradores de Higienópolis – um dos bairros nobres mais conservadores da capital paulista.

Alguns “ilustres”, como o senador e candidato à vice-presidência da República Aloysio Nunes (PSDB) reagiu assim: “Delírio autoritário de Haddad: esparrama ciclofaixas a torto e a direito, provocando revolta nos moradores de Higienópolis”, esbravejou em comentário nas redes sociais.

A declaração de Aloysio se deu quando a cidade completava 120 quilômetros de vias exclusivas para bicicletas. A meta da Prefeitura é chegar a 400 quilômetros até o final de 2015 a um custo de aproximadamente R$ 80 milhões.

A jornalista e cicloativista Renata Falzoni, umas das pioneiras na valorização do uso da bicicleta no país, vê a disputa como exemplo da segregação que existe no Brasil.

“É a síndrome de Higienópolis. Existe no Brasil uma ‘agorafobia’ muito grande de uma classe melhor aquinhoada de status social que tem medo de andar no espaço público, que tem medo de compartilhar o espaço público de pessoas de classes menos favorecidas. O problema é de uma segregação social que o país tem que não traz à baila que não discute”, destaca Falzoni, que também é formada em arquitetura.

A reação enfurecida de moradores de bairros nobres da capital paulista demonstrou ser um caso isolado, pois não foi registrada no recente levantamento da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET). O órgão de trânsito mostra que 88% dos paulistanos aprovam a construção e ampliação de ciclovias na cidade.

“Num primeiro momento você cria essa onda de pessoas contra, mas a primeira pesquisa que o Ibope fez já deu que 88% querem a estrutura cicloviária e 92% querem a estrutura de ônibus, que são os corredores. Então está aí, a solução é essa. O que a gente precisa é rapidamente mudar os nossos hábitos”, enfatiza Falzoni.

Atualmente, segundo estudos da Prefeitura de São Paulo, andam pelas ruas paulistanas mais de 500 mil ciclistas. A grande maioria utiliza a bicicleta não como instrumento de lazer, mas para fazer trajetos diários.

“Existe uma ideia de que a bicicleta é elitizada e isso não é verdade. Pelo menos 70% dos que utilizam bicicleta na cidade de São Paulo são trabalhadores mais pobres ao contrário da ideia que se tem de que a bicicleta é um elemento elitizado”, provoca Gabriel Di Pierro, da Associação dos Ciclistas Urbanos de São Paulo (Ciclocidade).

Levantamento da Secretaria de Estadual da Saúde de São Paulo, divulgado no início de 2013, revelou que a cada dois dias morria pelo menos um ciclista internado em algum hospital público do estado em consequência de acidente de trânsito.

Para Carlos Aranha, do GT de Mobilidade Urbana da Rede Nossa São Paulo, o que está acontecendo na capital em relação às ciclofaixas abre esperança para o resgate do direito à cidade.

“Uma ciclovia que não tira faixa de rolamento da rua, tira a privatização do espaço público, que era o estacionamento de carros particulares e hoje é uma via segura para o ciclista. Você vê pessoas reclamando disso, você entende que ainda existe um pensando individualizado e egoísta muito forte”, comenta.

Ainda de acordo com a Secretaria da Saúde, em média nove usuários de bicicleta são internados todos os dias na rede pública de São Paulo. As lesões mais frequentes sofridas pelos ciclistas são traumatismos craniano e da coluna vertebral e fraturas na bacia, no antebraço, no fêmur e na tíbia. O integrante da Nossa São Paulo considera o momento importante para que a cidade deixe de ser modelo negativo para o país.

“Em mobilidade urbana, São Paulo tem sido um modelo ruim para o Brasil há décadas e a gente agora parece que vai começar assim um modelo bom, uma referência positiva para o restante do Brasil”, conclui Aranha.

A disputa pelo direito aos espaços públicos não termina em Higienópolis. A partir de janeiro, uma das principais vias da capital começa a receber ciclofaixas, a Avenida Paulista. Em março de 2013, o ciclista David Santos, 22, teve um braço decepado ao ser atropelado no local pelo estudante Alex Kozloff Siwek. O acidente teve grande repercussão e foi marcado pela fuga do motorista, que lançou o braço da vítima em um córrego.

Protestos de Junho

Questão central em toda cidade, a mobilidade urbana está ligada principalmente ao acesso à cidade e aos serviços públicos. Estopim das manifestações de junho de 2013, a questão levou milhões de brasileiros às ruas – a princípio pela redução das tarifas e por melhores condições de transporte. Entretanto, o tema não chega a ser protagonista das grandes discussões no país, embora tenha sido pano de fundo por mudanças no quadro político brasileiro.

Historicamente, o modelo de cidade nos grandes centros urbanos tem estimulado o transporte individual de carros, a chamada “cultura do automóvel”, deixando em segundo plano o transporte coletivo e alternativas como as ciclovias e as faixas exclusivas de ônibus. Em outras partes do mundo, muitas opções têm melhor sucesso que o uso de automóveis.

“Os países do século 20 compraram sem questionar essa mobilidade em carro individual. Foi talvez uma das indústrias mais eficientes do planeta essa da indústria automobilística de imaginar que o progresso e a felicidade vinham com a carro individual. A conta não fecha”, comenta a jornalista e cicloativista Renata Falzoni.

Segundo pesquisa da Rede Nossa São Paulo, o paulistano gasta diariamente uma média de 2 horas e 46 minutos para se deslocar pela cidade seja de metrô, carro, ônibus, bicicleta ou a pé.

Desde 2013, a cidade tem cerca de 320 quilômetros de faixas exclusivas para ônibus, número que vem crescendo a cada mês. Recente levantamento da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) mostra que os ônibus da capital paulista estão 68% mais rápidos nas novas faixas exclusivas para transporte público.

Expansão automobilística

Segundos dados do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), entre 2003 e 2013, a frota de carros quase dobrou, chegando a um aumento de 123%. Para se ter uma ideia, é como se nos últimos anos, o Brasil ganhasse uma média de 12 mil por dia. A frota de motos foi multiplicada por seis. Já ônibus e trens cresceram apenas 23%.

“Não cabe todo mundo se movimentando ao mesmo tempo de carro. E a nossa cidade já vem mostrando isso há muito tempo. A diferença é que agora a gente começou acordar e a atual gestão começou a ter coragem de discutir isso”, comenta Carlos Aranha, do GT de Mobilidade Urbana da Rede Nossa São Paulo.

Atualmente, o Brasil possui uma frota de mais de mais 80 milhões de veículos. Os carros ainda são maioria, seguidos pelas motocicletas. E a conclusão é óbvia: junto com o aumento da frota de veículos, aumentam também o tempo gasto no trânsito, a poluição e o número de acidentes. Falzoni acrescenta o problema da localidade das moradias como um agravante.

“Então para que nós tenhamos uma mobilidade digna e transporte público digno, você tem que ter trabalhador morando no centro, perto dos empregos e você tem que ter empregos na periferia, você tem que ter um adensamento ao longo dos corredores de ônibus, dos corredores de metrô e de trem”, conclui Falzoni.

Fonte: http://www.brasildefato.com.br/node/30153

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Aproximação Absurda e Irresponsável!

Hoje pela primeira vez, um carro tocou o seu retrovisor no meu guidão…

Em dia de eleição, resolvemos ir a Ribeirão Pires pedalando, assim, Flávio exerceria seu “direito” e nós aproveitaríamos pra pedalar um pouco, nos preparando para uma próxima viagem. Há algum tempo temos optado por ir pra Ribeirão aqui de Mauá, utilizando a Avenida Princesa Isabel, por considerá-la mais segura que a movimentada Avenida Capitão João… Tudo estava indo bem, até o retorno, quando em um local de comércio, vários carros nos ultrapassavam com distância e velocidade segura, mas uma motorista, “tocou seu retrovisor no meu guidão”…
Dá pra acreditar! Prefiro pensar que foi displicência e não intenção de me matar… Mas ela só PODIA TER ME MATADO com sua 1 tonelada de aço que possui um acelerador, mais conhecida por CARRO.

Engoli o xingamento em respeito às “putas” e resolvi anotar a placa do carro, só não consegui ver a cidade do mesmo… mais à frente, numa rua próxima, lá estava o carro estacionado (em cima da calçada, mero detalhe).

Percebam a distância da lataria do carro à pontinha do retrovisor… e a pressa da pessoa??? Chegou tão rápido a seu destino que poderia perder alguns segundos desacelerando sua máquina e não me colocando em risco… De dentro da casa eu podia ouvir o alvorosso do almoço… eu poderia não ter tido o meu.

Bem no cantinho, dá pra ver um ralado que se destaca… Se eu estivesse com minhas mãos no “Bar End” (aqueles “chifrinhos” que ficam no guidão), provavelmente a marca seria outra. “Minha sorte” foi que o “pequeno toque” no guidão (que o faz virar para a direita enquanto caímos para a esquerda), não chegou a me  derrubar…
Em especial para meus amigos e familiares, peço que atentem para os vídeos abaixo, sobre o 1,5 metros de distância que um automóvel deve manter ao ultrapassar um ciclista. Não é uma questão de lei, mas de bom senso e respeito à vida…
Agora à noite, fiz um B.O. eletrônico por meio do site: http://www.ssp.sp.gov.br/bo/Default.aspx. Para conseguir concluir o B.O. tive de colocar os dados do meu carro, uma vez que, pelos vistos, acidentes com bicicletas não são considerados acidentes de trânsito.De todo o modo, para os mais “incrédulos”, seguem algumas das infrações cometidas pela motorista segundo o Código de Trânsito Brasileiro:Fonte das informações abaixo: Blog Vá de Bike

Pedestres têm prioridade sobre ciclistas; ciclistas têm prioridade sobre motos e carros:

Art. 29. O trânsito de veículos nas vias terrestres abertas à circulação obedecerá às seguintes normas:
(…)
§ 2º Respeitadas as normas de circulação e conduta estabelecidas neste artigo, em ordem decrescente, os veículos de maior porte serão sempre responsáveis pela segurança dos menores, os motorizados pelos não motorizados e, juntos, pela incolumidade dos pedestres.
Os carros não devem nos fechar:
Art. 38. Antes de entrar à direita ou à esquerda, em outra via ou em lotes lindeiros, o condutor deverá:
(…)
Parágrafo único. Durante a manobra de mudança de direção, o condutor deverá ceder passagem aos pedestres e ciclistas, aos veículos que transitem em sentido contrário pela pista da via da qual vai sair, respeitadas as normas de preferência de passagem.
Ameaçar o ciclista com o carro é infração gravíssima, passível de suspensão do direito de dirigir e apreensão do veículo e da habilitação:
Art. 170. Dirigir ameaçando os pedestres que estejam atravessando a via pública, ou os demais veículos:
Infração – gravíssima;
Penalidade – multa e suspensão do direito de dirigir;
Medida administrativa – retenção do veículo e recolhimento do documento de habilitação.
Colar na traseira do ciclista ou apertá-lo contra a calçada é infração grave:
Art. 192. Deixar de guardar distância de segurança lateral e frontal entre o seu veículo e os demais, bem como em relação ao bordo da pista, considerando-se, no momento, a velocidade, as condições climáticas do local da circulação e do veículo:
Infração – grave;
Penalidade – multa.
Tirar fina é infração média:
Art. 201. Deixar de guardar a distância lateral de um metro e cinqüenta centímetros ao passar ou ultrapassar bicicleta:
Infração – média;
Penalidade – multa.
Se a fina for em alta velocidade, são duas multas (a média aí de cima mais essa grave aqui):
Art. 220. Deixar de reduzir a velocidade do veículo de forma compatível com a segurança do trânsito:
(…)
XIII – ao ultrapassar ciclista:
Infração – grave;
Penalidade – multa;
A fina é considerada também uma ultrapassagem inadequada. Veja como o Código determina que deva ser feita uma ultrapassagem:
Art. 29. O trânsito de veículos nas vias terrestres abertas à circulação obedecerá às seguintes normas:
(…)
XI – todo condutor ao efetuar a ultrapassagem deverá:
a) indicar com antecedência a manobra pretendida, acionando a luz indicadora de direção do veículo ou por meio de gesto convencional de braço;
b) afastar-se do usuário ou usuários aos quais ultrapassa, de tal forma que deixe livre uma distância lateral de segurança;
c) retomar, após a efetivação da manobra, a faixa de trânsito de origem, acionando a luz indicadora de direção do veículo ou fazendo gesto convencional de braço, adotando os cuidados necessários para não pôr em perigo ou obstruir o trânsito dos veículos que ultrapassou.
Devemos andar na rua, no sentido dos carros e nas faixas laterais da via (inclusive na esquerda em caso de vias de mão única, embora geralmente isso seja bastante perigoso, sobretudo em avenidas de fluxo rápido). E temos preferência de uso da via!
Art. 58. Nas vias urbanas e nas rurais de pista dupla, a circulação de bicicletas deverá ocorrer, quando não houver ciclovia, ciclofaixa, ou acostamento, ou quando não for possível a utilização destes, nos bordos da pista de rolamento, no mesmo sentido de circulação regulamentado para a via, com preferência sobre os veículos automotores.
Parágrafo único. A autoridade de trânsito com circunscrição sobre a via poderá autorizar a circulação de bicicletas no sentido contrário ao fluxo dos veículos automotores, desde que dotado o trecho com ciclofaixa.
Ao contrário da crença popular, NÃO EXISTE VELOCIDADE MÍNIMA NA FAIXA DA DIREITA!Entenda aqui
Art. 219. Transitar com o veículo em velocidade inferior à metade da velocidade máxima estabelecida para a via, retardando ou obstruindo o trânsito, a menos que as condições de tráfego e meteorológicas não o permitam, salvo se estiver na faixa da direita:
Infração – média;
Penalidade – multa.
Bicicleta também é veículo:
BICICLETA – veículo de propulsão humana, dotado de duas rodas, não sendo, para efeito deste Código, similar à motocicleta, motoneta e ciclomotor.

Cidade Segregada…

Hoje fui assaltada pela primeira vez… É estranho, mas agente sempre sai com essa perspectiva na cabeça. Quando decidi ir caminhando da Sé até o Brás pensei: é fim de mês, tenho 12 pilas na carteira e poucos vinténs no banco… Já fiz esse caminho algumas vezes de bicicleta (emprestada na Sé) e sabia que ia passar por toda sorte de gente desvalida pelo caminho. Após a Catedral, pude vislumbrar um bonito pôr do sol destacando seus contornos. Já em frente, observei o viaduto pra ver se havia movimentação, e em seguida um par de maritacas me sobrevoou na algazarra costumeira das maritacas. Sem dúvida, muito melhor que a lotação da linha vermelha em horário de pico.

Ingressei no viaduto. A calçada é segregada por uma grande mureta. Passaram dois homens e uma mulher pra cá, atrás de mim não havia ninguém, no topo do morro avistei movimentação estranha, percebi os rapazes abaixados, mas titubeei em voltar pra trás, poderia não ser nada. Mas era.

Conforme fui me aproximando, vi que se levantaram e vieram em minha direção, já fiz sinal pra que ficassem calmos… acho que foi isso. Parece que reconheci um dos garotos, ou dois, ou mesmo os três. De certa forma penso que os conheço. Desde que passei pelo PETI em Mauá, o Andrezinho Cidadão em Santo André, e em especial agora pelo Ministério Público, enquanto “participo” da fiscalização das medidas em meio aberto e da Fundação CASA.

Eles também ficaram calmos, disseram que não queriam machucar ninguém (o reconhecível com um estilete na mão). Pediram dinheiro e o celular, que idiotamente respondi não possuir. Vagarosamente, abri a mochila e retirei a carteira, somente R$ 12,00 a habitavam. Argumentei: “é fim de mês”. O celular se manteve calado. Insistiram. Retruquei. E o reconhecível decidiu encerrar o assunto. Agradeci… Agradeci em voz alta os rapazes que me assaltaram.

Segui meio atordoada e quis pular o muro pra ir pra pista. Um ciclista vinha vindo e o alertei sobre os rapazes, mas era como se precisasse dizer pra alguém que eu fora assaltada, e já da rua continuei avisando os transeuntes que seguiam pela segregada calçada. Era necessário falar, alertar as pessoas. Um rapaz deu meia volta e seguiu pela pista, junto aos carros que seguiam em alta velocidade. Saí do viaduto já com vontade de chorar. Tive medo da besteira que fiz em não entregar-lhes o celular.

Mas que merda não?

Há tempos venho querendo escrever sobre o que é o centro de São Paulo. Se existe purgatório, inferno e estas coisas, muitos já o vivem por ali. Ao mesmo tempo, uma cegueira paira sobre todas as pessoas apressadas que cotidianamente transitam no local. Também pudera, cheira a merda. Isso sem falar das barbas institucionais de Ministérios Públicos, Palácios da Justiça, Faculdades de direito, que ainda pensam se manter imaculadas, do alto de sua soberania, aos “judeus” que habitam suas portas.

Mas amanhã novamente vou dar aquela corridinha pelo calçadão pra não perder a hora, e contribuir para o nosso belo quadro social. Se a única moeda de troca que se tem é a violência, é ela que a teremos em nosso dia a dia. Não haverão prisões suficientes pra tantos pés de chinelo, e nem tantos tapetes vermelhos pra abaixo se empurrar tamanha sujeira…