A Bicicletada está morta…

Foto de Thiago Benicchio

Thiago Benicchio

Thiago Benicchio é jornalista, pesquisador de mobilidade urbana e usuário de bicicleta na cidade desde 2004. É Diretor da Associação Ciclocidade e foi autor do blog Apocalipse Motorizado.

09/09/2013
16h00

A Bicicletada está morta. Longa vida à Bicicletada! (parte 1) | Bike é Legal

Texto originalmente publicado em inglês no livro Shift Happens: Critical Mass at 20, organizado por Chris Carlsson, LisaRuth Elliott e Adriana Camarena por ocasião dos 20 anos da Massa Crítica de São Francisco em 2012. O livro apresenta artigos sobre bicicletadas em diversas cidades do mundo e pode ser adquirido em versão impressa ou ebook. Este artigo, inédio em português, foi dividido em quatro partes para o Bike é Legal.

A Bicicletada, apelido do movimento de Massa Crítica no Brasil, acontece há mais de uma década em São Paulo, mas nunca chegou a ser tão grande quanto os encontros em São Francisco, cidade de origem do movimento. Exceto pelas edições anuais que aconteciam no Dia Mundial Sem Carro, quando mais de 500 pessoas participavam, a massa mensal nunca passou da casa de duas ou três centenas de participantes. Ainda assim, a Bicicletada de São Paulo foi o “Big Bang” para muitas iniciativas públicas e privadas relativas ao ciclismo urbano no Brasil do século XXI.

Arte: Mona Caron

capa do livro Shift Happens! Arte: Mona Caron
capa do livro Shift Happens! Arte: Mona Caron

Da simples ideia de que pessoas comuns podem utilizar a bicicleta para se locomover às recentes “ciclorrotas” criadas pela prefeitura e inspiradas no “faça você mesmo” que tomou as ruas em 2007, é inegável que o pequeno e criativo grupo foi grande responsável pelo início das mudanças recentes em uma cidade carrocêntrica de 12 milhões de habitantes. Por outro lado, a Bicicletada de São Paulo perdeu muito de sua força como movimento social e, nos últimos anos, sofre da entediante rotina de ter se tornado apenas mais um passeio de bicicletas sem qualquer aprofundamento político, cultural ou artístico (mesmo aqueles relacionados apenas à bicicleta).

Depois de uma primeira fase entre 2002 e 2004, os anos de 2005 e 2006 trouxeram um crescimento lento mas permanente: durante os verões, entre 30 e 50 pessoas, às vezes 100, participavam; no inverno, as pedaladas reuniam entre 10 e 30 pessoas. A Bicicletada mensal nunca atraiu cobertura da mídia. Em vez disso, uma pequena rede de blogs e sites foram responsáveis por sua divulgação e cobertura, a começar pelo Centro de Mídia Independente. A ausência da mídia geralmente significa ausência de interferências policiais: os dois únicos incidentes envolvendo repressão aconteceram durante as Pedaladas Peladas de 2008 e 2009, terminando com ciclistas detidos, spray de pimenta e (claro) muita cobertura da mídia.

A primeira vez que eu participei da Bicicletada em São Paulo foi no dia 22 de Setembro de 2004, durante o Dia Mundial Sem Carro. Estava gravando um documentário sobre transporte e minha missão era entrevistar um dos participantes e gravar algumas imagens daquele movimento até então desconhecido. A minha primeira Bicicletada foi tranquila, com a presença de cerca de 50 pessoas saindo da Avenida Paulista em direção ao centro de São Paulo. Não apenas concluí o roteiro, mas também descobri que um boêmio estudante de jornalismo também poderia utilizar uma bicicleta para ir e vir. Fiquei mais alguns meses com a bicicleta que havia emprestado da minha irmã, em seguida comprei uma para mim e, desde então, me juntei à divertida massa de ciclistas paulistanos nas Bicicletadas e também no cotidiano.

Logo depois da minha primeira Bicicletada, me inscrevi em uma lista de discussão por e-mail que servia para planejar os passeios e discutir temas relacionados. Ali eu descobri que o nome Bicicletada fora usado pela primeira vez em 20 de Julho de 2001, durante um protesto antiglobalização chamado para a mesma data de um encontro do G-8. O inspirador movimento antiglobalização saía às ruas nos chamados Dias de Ação Global em datas de encontros de organismos multinacionais como FMI, ALCA e OMC, quando os líderes planetários e corporações discutiam como implementar suas plataformas neoliberais em todo o mundo.

Os manifestantes antiglobalização do início do século (re)descobriram que resgatar as ruas em formas não tradicionais de protesto também eram boas formas de protestar. Carros de som com líderes partidários ou sindicais bradando discursos muitas vezes ininteligíveis ou massas segurando bandeiras e repetindo palavras de ordem pouco significativas eram substituídos por jogos de futebol na rua, pessoas distribuindo panfletos feitos em casa, “black blocks” ou mesmo festas de rua e bicicletas ocupando o espaço público, que bloqueavam a engrenagem do sistema e contestavam a ordem do novo capitalismo financeiro.

No entanto, muitos dos grupos e indivíduos que participaram das Bicicletadas durante os protestos antiglobalização não usavam bicicletas no cotidiano. Assim, houve um pequeno inverno entre a primeira vez que a palavra “Bicicletada” foi usada e a origem do encontro mensal de Massa Crítica. Em uma manhã de sábado, 29 de junho de 2002, um pequeno grupo se encontrava na Avenida Paulista para pedalar em direção ao centro na primeira Bicicletada mensal da cidade.

Os encontros de sábado não chegavam a atrair mais de 15 pessoas e aconteceram de forma esporádica até 2004, quando o número reduzido de entusiastas e participantes quase acabou com a ideia. Depois de algumas discussões na lista de e-mails e reuniões presenciais, o encontro matinal era substituído pela noite de sexta-feira. Em abril de 2005, a primeira Bicicletada na hora do rush acontecia em São Paulo, com 7 participantes. A pedalada terminou debaixo do vão livre do MASP (Museu de Arte de São Paulo), onde ativistas do Centro de Mídia Independente promoviam uma exibição de documentários sobre o oligopólio midiático no Brasil.

Das ruas à internet (e vice-versa)

No início, quando a Bicicletada ainda acontecia aos sábados, a internet não era um meio tão abrangente quanto hoje e a divulgação dos passeios acontecia por meio de panfletos impressos e da tradicional xerocracia. Os difusores iniciais da ideia estavam ligados a núcleos anarquistas ou eram estudantes universitários. Os primeiros participantes entre 2002 a 2004 eram vinculados direta ou indiretamente a estes grupos. Panfletos deixados no guidão de bicicletas estacionadas dentro da Universidade de São Paulo trouxeram alguns dos primeiros adeptos “externos” ao núcleo inicial de ativistas.

Em janeiro de 2002 uma lista de discussão por e-mail já estava ativa nos servidores do Riseup, inicialmente congregando pessoas de todo o Brasil que tentavam articular bicicletadas em cidades como São Paulo, Camboriu, Rio de Janeiro, Brasília e Florianópolis. No ano seguinte nascia a lista específica da Bicicletada de São Paulo.

A utilização de ferramentas digitais de comunicação também servia para a publicação de relatos, fotos e vídeos e foi importantíssima para o crescimento da Bicicletada em uma cidade com as características de São Paulo: além do tamanho da mancha urbana, a cidade sofre com a carência de espaços públicos de encontro e convivência como praças e parques.

Além do Centro de Mídia Independente e das listas de correio eletrônico, ferramentas corporativas como Blogspot, Geocities, Youtube e Flickr serviram para informação e difusão de conteúdo, em um trabalho contínuo realizado por um punhado de entusiastas. Na mesma época em que comecei a participar da Bicicletada, iniciei o blog Apocalipse Motorizado e me dispus a fazer a cobertura e a divulgação mensal dos eventos. O título do blog foi inspirado em um livro homônimo, publicado alguns anos antes por um dos participantes iniciais da Bicicletada, e que trazia uma coletânea de textos de ecologistas radicais como Ivan Ilich e Andre Gorz, além de um apêndice chamado “Algumas ideias anti-carro”, com textos da revista Carbusters, informações sobre “como organizar uma parada de bicicletas”, explicações sobre os princípios do Critical Mass e ilustrações de Andy Singer.

Entre 2006 e 2009, o Apocalipse Motorizado chegou a ter cerca de 1000 visitas únicas por dia e ainda guarda os relatos, fotos e vídeos de todas as bicicletadas acontecidas entre 2005 e 2009. Junto com o site colaborativo da Bicicletada, com as publicações no Centro de Mídia Independente e com os relatos esporádicos em outros blogs e sites, o Apocalipse Motorizado ajudou a difundir a ideia da Massa Crítica, atraindo não apenas os ciclistas de São Paulo para os passeios mensais, mas também propagando o conceito para outras cidades do Brasil. Curitiba, Aracaju, Porto Alegre, Brasília e dezenas de outras cidades começaram a replicar as ações realizadas em São Paulo, copiando ou adaptando placas, panfletos, cartazes e atividades, da mesma forma que os ativistas e ciclistas paulistanos se utilizaram da inspiração vinda de São Francisco para criar a Bicicletada paulistana.

Ao mesmo tempo, outros blogs começavam a tratar do ciclismo urbano e colaboravam para aumentar a “massa crítica” de conhecimento sobre o tema, até então bastante restrita e desconhecida em São Paulo. Entre os sites que colaboraram para a difusão deste conhecimento durante o período inicial da Bicicletada, vale destacar o CicloBRFalanstérioTransporte AtivoVá de BikeGira-Me e Pedalante, sendo que muitos outros surgiram com o passar dos anos e ajudaram a engrossar a rede de comunicação sobre o tema em São Paulo: QuintalEcologia UrbanaIgual Você e Panóptico, para citar alguns.

No entanto, a internet é apenas um meio de difusão e comunicação que ajuda a potencializar o intercâmbio entre grupos e indivíduos, não substituindo a ação real ou a presença nas ruas. Os sites acima e a própria bicicleta tiveram a contribuição de uma série de cidadãos que tiraram fotos, registraram vídeos ou escreveram relatos em redes sociais e listas de email.

As ações de rua e a existência de pessoas dispostas a participar e promover a Bicicletada todos os meses foram os maiores responsáveis pelo seu crescimento e pela sua importância. A Bicicletada de São Paulo teve outros dois pontos importantes: a criatividade de algumas ações provocadoras (ligadas especialmente à arte urbana) e a busca contínua pela noção de compartilhamento pacífico das ruas entre veículos motorizados e bicicletas.

A ideia de evitar o conflito entre motoristas e ciclistas se reflete no comportamento da própria massa ao longo dos anos: motivada talvez pela necessidade intrínseca de sobrevivência de um grupo que sempre foi pequeno. Ainda que os ciclistas desafiassem o status quo, substituindo automóveis por bicicletas no espaço urbano durante a hora do rush, esta “provocação” estava acompanhada pelo bom senso sobre a sua fraqueza em caso de um conflito físico, seja com motoristas ou com a polícia.

A Bicicletada paulistana também teve o cuidado de ocupar o espaço nas ruas compatível com o seu tamanho: ou seja, quando a participação era pequena, apenas uma ou duas faixas de rolamento eram utilizadas, deixando as demais livres para o trânsito motorizado. Em dias de maior público, ocupava-se até três das quatro faixas das avenidas por onde a massa passava.

Nos primeiros anos de sua existência a Bicicletada também exerceu um papel educativo direto, distribuindo panfletos aos motoristas com informações sobre o direito dos ciclistas de utilizarem a via e sugerindo o compartilhamento das ruas através do respeito à vida. Os panfletos, produzidos pelos participantes e replicados na base da xerocracia traziam informações inéditas ou pouco difundidas sobre o uso de bicicletas como meio de transporte e os direitos dos ciclistas. Tais informações seriam vistas quase uma década depois em campanhas oficiais da prefeitura ou de empresas.

A cada Bicicletada algumas centenas de motoristas recebiam os panfletos, propagando lentamente conceitos que não estavam disponíveis em nenhuma outra fonte midiática ou institucional. A situação caótica do trânsito de São Paulo, com congestionamentos intermináveis e sempre crescentes, facilitou a compreensão da ideia de que os ciclistas não são inimigos de motoristas ou estão “roubando” o espaço dos carros, mas sim que a bicicleta ajuda a diminuir os congestionamentos.

A imagem de centenas de bicicletas ocupando o lugar de meia dúzia de carros é bastante didática e torna-se mais compreensível em uma cidade que vive congestionada por automóveis. Ainda assim, alguns poucos episódios de intolerância e agressividade de psicopatas ao volante aconteceram ao longo dos anos, mas não há registros de nenhum caso mais grave de ferimentos ou brigas envolvendo os participantes da Massa Crítica e os motoristas.

A “desobediência educativa” da Bicicletada também procurou manter boas relações com os usuários de transporte coletivo e com os pedestres: geralmente a massa deixava livre as faixas utilizadas pelos ônibus, demonstrando que o grande entrave da mobilidade urbana é a utilização excessiva de automóveis. Além disso, sempre houve preocupação com o respeito à travessia de pedestres e não é exagero dizer que muitos ciclistas de São Paulo aprenderam a dar preferência aos pedestres na Bicicletada.

Essas duas características não foram absolutas e provocaram algumas polêmicas entre os participantes, já que as faixas de ônibus liberadas geralmente eram ocupadas também por automóveis e o fato da massa parar para pedestres muitas vezes quebrava a coesão do grupo, aumentando o risco de algum motorista impaciente se colocar no meio dos ciclistas. Mas é possível dizer que, ao longo dos anos, houve um equilíbrio bastante positivo e inteligente entre transgressão e respeito, fato que ajudou não apenas a fazer crescer a massa, como também serviu para aglutinar simpatia ou ao menos tolerância da população.

(CONTINUA…)

Fonte: http://www.espn.com.br/post/354672_a-bicicletada-esta-morta-longa-vida-a-bicicletada-parte-1-bike-e-legal

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Uma resposta em “A Bicicletada está morta…

  1. Acho bicicletada não morreu ,ela somente mudou de dono ou endereço. Os grupos de pedais são um bom exemplo de bicicletada , apesar que discretos e sem saber protestar seu espaço , a cada dia surgem mais ciclistas. tem tbem os pedais feitos pela prefeituras que aumentao o numero de ciclistas a cada dia

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